A entrevista de Flávio Dino concedida ao portal da`Folha/UOL traz muitos elementos importantes para análise da mídia local, daí que não basta apenas reproduzi-la e elogiá-la, como a imprensa amiga do dinismo o faz.
Nesse sentido, o Blog do Robert Lobato segue comentando as declarações dadas pelo governador eleito do Maranhão ao jornalista Fernando Rodrigues, da Folha/UO. até porque a entrevista ainda repercute muito. Vamos nessa.
A “revolução burguesa” – Por preconceito, desinformação, má-fé ou outra coisa qualquer, um dos pontos mais polêmicos da entrevista de Flávio Dino foi quando afirmou que fará uma “revolução burguesa” no Maranhão.
Disse o futuro chefe do Executivo estadual: “Nosso desafio é fazer uma revolução democrática burguesa, com 300 anos de defasagem. Ou seja, garantir o cumprimento da lei, dos contratos, incentivar os investidores privados. Novas formas de organização do Estado que contemplem a participação popular, mas que permitam também o desenvolvimento daqueles que querem empreender, investir, que venham para o Maranhão, acreditem no nosso porto, na nossa infraestrutura.”
Na verdade, quando Flávio Dino fala em “revolução burguesa” quer dizer que irá preparar as bases para uma espécie de “capitalismo tardio” no Maranhão (essa questão já foi por várias vezes tema de post no Blog do Robert Lobato).
Seria a forma de superar o modelo patrimonialista de Estado que, infelizmente, concorreu para que o Maranhão não avançasse econômica e socialmente ao longo dos anos.
O termo “revolução burguesa” é usado para definir processos históricos de superação de sociedades feudais ou atrasadas por estruturas modernas de formas de poder e modos de produção.
Não que o Maranhão seja um estado feudal que necessite de uma “revolução burguesa” propriamente dita, até porque já há empresas capitalistas fortes instaladas de Norte a Sul do estado, inclusive algumas multinacionais.
O que precisa é de uma nova política de condução do Estado maranhense no sentido de remodelar o capitalismo que já existe por estas terras.
Como fazer, por exemplo, com que empresas como a Alumar, Suzano, Vale do Rio Doce, o agronegócio e outros grandes empreendimentos que queiram se instalar no Maranhão sejam menos predatórios e mais produtivos para a economia do estado?
Esta é questão fundamental.
O assunto é complexo e amplo. Não dá para exaurir neste comentário.
O fato é que a “revolução burguesa” de Flávio Dino pode ser considerada mais uma frase de efeito do que algo mais substantivo do ponto de vista do objetivo governamental, até porque as bases já estão dadas, o que importa é reformá-las e reformulá-las para que, dessa forma, tenhamos, ao lado da tal “revolução burguesa”, uma revolução social no Maranhão.
Família Sarney – Claro que ao falar sobre o Maranhão não tem como deixar de fazer uma abordagem sobre a família Sarney, ainda mais quando o entrevistado é um líder da oposição (ainda).
O interessante neste ponto da entrevista de Flávio Dino é que nada é comentado sobre o “pós-Sarney”, interessante tese que o comunista defendeu constantemente quando disputou a Prefeitura de São Luis, em 20008.
À época, Dino advogava a superação do discurso meramente “antissarneysista” pelo que denominou de “Pós-sarneysismo”, ou seja, deixar de lado a retórica eleitoreira de ser contra ou a favor do Sarney e seguir rumo a outro ciclo político maranhense.
Já na entrevista à Folha/UOL, o comunista maranhense preferiu ficar preso ao “sarneysismo” sem fazer qualquer menção à tese do “Pós-Sarneysismo” de 2008.
“O Victor Nunes Leal [1914-1985] escreveu um livro muito conhecido, alguns colocam inclusive entre os dez mais importantes da ciência política: “Coronelismo, enxada e voto”. Escreveu em 1949. Tenho a impressão que o senador José Sarney leu esse livro, gostou muito e resolveu aplicar no Maranhão. É exatamente esse sistema que nós temos lá. José Sarney, a partir da eleição dele como governador, exerceu níveis diferenciados de influência, mais alta ou mais baixa, mas sempre uma grande influência. Até afirmar o domínio absoluto exatamente pela capacidade de cumprir uma das leis do coronelismo, que é se adequar às mudanças da política nacional para manter o poder local (…) É uma capacidade de adaptação visando a manter o poder local. Nós conseguimos romper esse pacto oligárquico, o pacto coronelista clássico que está no livro de Victor Nunes”.
Como se poder ver, mesmo eleito de forma consagradora Flávio Dino ainda está preso ao sarneysismo enquanto discurso político.
Não seria a hora de voltar ao postulado do “Pós-Sarney”?
Relação Lula x Sarney – O entrevistador peguntou a Flávio Dino se sabia qual a razão do Lula estar junto a José Sarney no Maranhão. O comunista se limitou a dizer que imagina ser por conta da questão da governabilidade do país, ainda que ache que isso não justifica a relação entre os dois políticos.
“Estamos vendo as dificuldades que este governo e qualquer governo enfrentaria num Congresso [Nacional] extremamente fragmentado. É difícil a formação de maiorias estáveis, que garantam a implementação de políticas públicas, e isso faz com que haja determinados pactos. Apenas penso que no caso do Maranhão o preço imposto era muito alto, a perpetuação desse sistema injusto que lá estava”, respondeu.
Ora, Dino sabe que o atual sistema político, partidário e eleitoral do Brasil é responsável por esta relação muitas vezes problemáticas entre o Executivo e Legislativo. Este contexto político-institucional faz com os governos, sejam eles quais forem, fiquem refém da famigerada governabilidade.
Flávio Dino vai ser governador a partir do dia 1º de janeiro de 2015 e sentirá, na pele, do que a tal governabilidade é capaz de fazer, para o bem ou para mal.
Mas no caso da amizade, compadrio ou como queiram chamar a relação do Lula com o Sarney, nada tem a ver com governabilidades, posto que começou muito antes quando o petista ainda era líder da oposição.
Quem quiser entender melhor porque o Sarney foi chamado de “homem incomum” pelo líder maior do PT, basta ir atrás do artigo do senador pelo PMDB publicado na Folha de São Paulo, em 1998, intitulado “A Lula o que é de Lula”.
Até amanhã com a terceira parte do nosso cometário à entrevista de Flávio Dino.