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quarta-feira, 19 de novembro de 2014

Porque a morte não é o fim, apenas um recomeço

“Nós não acabamos na morte. Transformamo-nos pela morte”.
Leonardo Boff
Um dileto amigo ligou-me ontem dando a sugestão para que reproduzisse o artigo “A transfiguração na morte”, de autoria do nosso papa Leonardo Boff, postado aqui no ano passado.
O amigo em questão conheceu o médico Luis Alfredo, assassinado barbaramente na sua residência duas semanas atrás, e achou oportuno a reprodução do texto como forma de tranquilizar parentes e amigos de médico.
Coincidentemente, após ouvir a sugestão do amigo tive o grato prazer de ler um artigo reflexivo sobre a vida/morte tão brilhante quanto de Boff.
Trata-se de “A fecundidade das desilusões”, escrito pelo historiador Daniel Aarão Reis em homenagem ao seu colega de academia, o filósofo Leanfro Konder, morto semana passada – nunca esqueço de uma palestra histórica sobre marxismo proferida por Koder, na Uerj, em 1990).
Não tive o prazer de conhecer o médico Luis Alfredo, mas pelo comoção que causou em alguns amigos meus que o conheciam não deixa dúvida de que se tratava de uma pessoa querida e amada.
Nesse sentido, resolvi reproduzir não o artigo do Leornardo Boff, mas o de Daniel Aarão Reis, que tal como o primeiro eleva à morte ao patamar que realmente de estar: da naturalidade dialética da vida.
Acho que você irá gostar, meu caro Flávio.

“A fecundidade das desilusões”

A coisa toda é você não se deixar impressionar pelos revezes. Não demasiadamente. Não perder a coragem de continuar tentando, mesmo sob uma avalanche de derrotas. Porque a desilusão, bem trabalhada, pode ser encorajadora.
Querem saber? Mais importante do que o esplendor e a ovação do sucesso, é a lágrima furtiva e solitária de quem não triunfou. E é por isso que tenho uma proposta: em vez do curriculum vitae, vamos adotar o curriculum mortis. No lugar da longa litania das vitórias, às vezes exageradas, ou falsificadas, o inventário dos abismos em que a gente caiu. Vou dar um exemplo concreto: no curriculum vitae você escreve que tirou terceiro lugar num concurso, uma colocação honrosa. No curriculum mortis, você esclarece que só havia três candidatos.
Um curriculum mortis poderia formular a relação dos desenganos, dos sonhos frustrados, das perdidas oportunidades, dos jogos disputados ( vencidos por outros), a metáfora dos saltos que não conseguiram chegar ao outro lado, como na conhecida fotografia em que Cartier-Bresson flagrou o exato momento da impulsão – o salto, porém, resulta mal calculado. Já não dá para voltar atrás, o destino é a poça, à espera do infeliz.
On s’engage, et puis on voit, dizia Napoleão. Numa tradução para o brasileiro atual, poderia ficar assim: a gente mete bronca, depois vê como é que fica. Na versão russa, era uma das frases preferidas de Lenin. Vieram depois outros saltos: o de Lucaks para fugir, em vão, do olho de J. Stalin, o Grande Irmão. O de Gramsci perante o fascismo. O dos que foram a pique em 1964. O do Che na Bolívia. O de Marighella, metralhado nas ruas de São Paulo. A poça lá, esperando. O fracasso. Mas o que poderia ser mais elucidativo a respeito do caráter de alguém do que a sua capacidade de lidar com o fracasso?
E aí, quem se disporá a apresentar seu curriculum mortis?
Falava a sério ou brincava? A turma, medusada, presa às palavras do professor. Aquilo não era a vera, mas havia ali uma verdade. Ou era tudo brincadeira? Uma anedota séria? Como fazem os humoristas… Era de (bom) humor ou de História aquela aula?
O fato é que suas turmas estavam sempre cheias, os olhos dos estudantes, pensativos, as orelhas, em pé, a atenção, alerta, grudada. O mundo virava de cabeça para baixo. Dialeticamente. Não era, certamente, uma história usual, mas Leandro Konder não era um professor comum.
Quando se despediu dos estudantes da UFF, a sala cheia, depois de muitas ideias debatidas, onde se alternavam, como sempre, entrelaçados, o que havia de mais refinado e sofisticado no pensamento crítico e uma ironia séria e permanente, num jeito próprio que ele tinha de ser e de trabalhar, fizeram-lhe uma última pergunta, definitiva como o pedantismo. Era o seu grand finale naquela universidade. Pareceu pensar e matutar, com os olhos de sempre: joviais e brincalhões. Abriu a boca e pôs a língua para fora. Aqui pra vocês! Estava concedida a última aula e a mais profunda lição: não se levar a sério. Não demasiadamente.
Além de grande professor, e para desgosto suplementar dos colegas, diziam dele as mulheres que era bonito de doer. Suspiravam por ele.
Conto um episódio veraz, fui dele testemunha ocular, embora digam os russos nunca se deva acreditar nas testemunhas oculares da história. Mas eu estava lá quando minha madrinha acadêmica e mestra, Maria Yeda Linhares, mulher virtuosa e comedida, reservadíssima, como costumavam ser as senhoras nordestinas de antanho, pois a vi falar, ouvindo com os olhos e tristeza nos ouvidos: “como este Leandro é bonito…parece um Apolo.” E suspirou, ela que gostava de mim e, por mim, nunca houvera suspirado…
Comunista desde criancinha, Leandro Konder passou grossos perrengues na vida, porque nasceu num país onde nunca houve exagerada confiança nos revolucionários. Reconhecido intelectual desde muito jovem, teve um currículo mortis respeitável: curtiu prisão e exílio, mas sem jamais sair do ringue, embora muito empurrado. Como ele próprio reconheceu, apanhou mais do que bateu, mas também deu as suas, e as melhores estão em seus livros de história e de filosofia, sem contar os romances. Nada o conseguira abater, nem mesmo solerte doença que atezanou os últimos dez anos que lhe foram concedidos. Aturava a desdita com coragem e paciência, sem perder o bom humor, e para compensar a inclinação à direita do seu corpo, imposta pela Parkinson, mantinha o pensamento à esquerda, criticando, sempre com elegância, e aberto ao diálogo, as derivas apetitosas por um lugar ao sol de certos companheiríssimos.
Devia estar distraído quando a malvada Magra veio para levá-lo. Mal teve tempo de avisar os amigos e se despedir. Na estrela, com Carlos Nelson Coutinho, Lukacs e Gramsci, e mais um bom vinho, terão a eternidade para refletir sobre a fecundidade das desilusões.
Quanto a nós, ficaremos sem ele por um bom tempo.
Daniel Aarão Reis
Professor de História Contemporânea da UFF

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