por Monica Aiub, Vya Estelar
“O pós-humano somos nós e os artefatos que construímos e incorporamos, passando a viver a partir da interação com eles.”
Nos dias 25 e 26 organizamos a Jornada Brasileira de Filosofia da Mente, reunindo os pesquisadores para homenagear João Teixeira. Foi um belíssimo encontro, e o livro presente, Filosofia da Mente, Ciência Cogntiva e o pós-humano: para onde vamos? (Editora FiloCzar), foi a temática do evento.
Justamente por ser uma temática muito instigante, decidi escrever aqui sobre algumas questões levantadas neste livro. A primeira delas diz respeito ao conceito de pós-humano. Teixeira afirma em seu livro, A mente pós-evolutiva (2010), que a parabiose – ou a simbiose entre humanos e máquinas – será o futuro pós-evolutivo. Na medida em que criamos novas tecnologias e as incorporamos, modificamos nosso corpo, interagimos com o mundo e com o outro de diferentes maneiras, pensamos e sentimos de modo tão diverso que cabe questionar o que nos faz humanos, ou melhor, o que caracteriza nossa humanidade.
O pós-humano ou transumano, segundo autores como Andy Clark, já está ai. O pós-humano somos nós e os artefatos que construímos e incorporamos, passando a viver a partir da interação com eles. Outros autores, como Ray Kurzweil, apontam para um futuro próximo onde atingiremos a singularidade, ou seja, as máquinas criadas por nós atingirão um patamar tão ou mais desenvolvido que o alcançado pelo ser humano.
Construímos robôs, máquinas capazes de realizar funções que os seres humanos realizam; alteramos nossos corpos, incorporando partes artificiais, e com isso construímos ciborgues; desenvolvemos tecnologias que nos permitem estar além dos limites de nossos corpos, incorporar elementos, expandir os limites de nossas mentes; como conviveremos com estes seres híbridos? Seremos nós estes seres híbridos.
O suposto aprimoramento da condição humana através dos recursos da computação, da inteligência artificial, da bioquímica e da genética traz consequências não apenas em nossas formas particulares de vida, mas também no campo político e ético, com aplicações bélicas, como por exemplo a aeronave de bombardeio Taranis – uma aeronave autônoma, não tripulada, capaz de atacar com precisão a longa distância, sem ser detectada. Além disso, é capaz vigiar por longos períodos, marcar alvos, coletar dados, dissuadir adversários e atacar territórios hostis.
Além das questões éticas e políticas do uso bélico da tecnologia, há também questões relativas à produção e consumo de bens, assim como as relações e vida em sociedade. Superação da mortalidade; substituição de partes obsoletas do corpo, e talvez até de todo o corpo, por partes ou corpos artificiais; modelação neuroquímica do cérebro e do comportamento, consequentemente da sociedade; responsabilidade e liberdade; questões bioéticas; questões existenciais tais como o sentido da vida diante da imortalidade… São questões dessa natureza que permeiam o livro e os debates sobre o pós-humano.
De um lado, a possibilidade de aprimoramento de nossa condição humana com a incorporação de tecnologias nos parece sedutora. Além de oferecer respostas para problemas até então insolúveis, tais como a cura de doenças como alzheimer, parkinson, entre outras, poderemos incorporar próteses que nos tornarão mais fortes, mais ágeis, mais precisos em nossos movimentos e afazeres cotidianos. Poderemos modelar nosso cérebro de modo a nos tornarmos mais capazes de aprender, de lidar com problemas, de encontrar soluções. Já buscamos isso de muitas maneiras: as cirurgias plásticas, as próteses estéticas, os medicamentos para aperfeiçoar nosso funcionamento neuronal, nossa relação íntima com os computadores, mantendo-nos conectados por longos períodos, entre outras formas de incorporação de tecnologias.
Por outro lado, constatamos os problemas advindos destas mesmas tecnologias, assim como a destruição que o desenvolvimento tecnológico desenfreado trouxe ao nosso planeta. Consumimos o planeta e a nós mesmos enquanto criamos, produzimos, consumimos e incorporamos tecnologias.
Não se trata de assumir uma postura contra ou a favor das tecnologias, nem de propostas para incentivar ou refrear o desenvolvimento tecnológico. A reflexão suscitada pelos autores pretende, muito mais, questionar a forma como compreendemos a nós mesmos, nossas relações com os outros seres e com o planeta que habitamos.
Ao incorporarmos tecnologias, transformamos a nós mesmos, transformamos o mundo que habitamos. Estamos observando tais transformações? Estamos refletindo sobre o que estamos construindo para nós mesmos e para as futuras gerações? Se estamos, qual o mundo em que queremos viver? Estamos criando e incorporando tecnologias para a constituição deste mundo ou estamos construindo, consumindo e incorporando tecnologias que nos transformarão em algo distante do que buscamos? O que buscamos? Para onde vamos?
São questões dessa natureza que precisam ser pensadas por cada um e por todos nós.
Referências:
AIUB, M.; GONZALEZ, M. E. Q.; BROENS, M. (Organizadoras). Filosofia da Mente, Ciência Cognitiva e o pós-humano: para onde vamos? São Paulo: Editora FiloCzar, 2015.
CLARK, A. A Natural-Born Cyborgs:Minds, Technologies and the Future of Human Intelligence. New York: Oxford University Press, 2003.
KURZWEIL, R. A era das máquinas espirituais. São Paulo: Aleph, 2007.
TEIXEIRA, J.F. A mente pós-evolutiva. Petrópolis: Vozes, 201
AIUB, M.; GONZALEZ, M. E. Q.; BROENS, M. (Organizadoras). Filosofia da Mente, Ciência Cognitiva e o pós-humano: para onde vamos? São Paulo: Editora FiloCzar, 2015.
CLARK, A. A Natural-Born Cyborgs:Minds, Technologies and the Future of Human Intelligence. New York: Oxford University Press, 2003.
KURZWEIL, R. A era das máquinas espirituais. São Paulo: Aleph, 2007.
TEIXEIRA, J.F. A mente pós-evolutiva. Petrópolis: Vozes, 201